Subject: [flordelis] Educação e Escotismo (longo) From: "Lista Flor-de-Lis" Date: Wed, 7 May 2003 18:01:00 -0300 To: Discurso proferido pelo Dr. Jacques Moreillon, Secretário Geral da Organização Mundial do Movimento Escoteiro, perante a 29a. Conferência Geral da UNESCO, realizada em Paris, em 29 de outubro de 1997 Sr.- Presidente Sr.-. Diretor Geral, Delegados Eu pretendo usar menos da metade dos quatro minutos que me foram concedidos para lhes falar sobre o Escotismo, até porque estou seguro de que a maioria dos presentes foi Escoteiro e reconhece o quanto contribuiu para o desenvolvimento de suas personalidades esse Escotismo que, em nível mundial, duplicou seu efetivo nos últimos vinte anos, até chegar, hoje, aos vinte e cinco milhões de meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres, de mais de duzentos países e territórios. Esse Escotismo que, desde a queda da Cortina de Ferro, passou a contribuir para a educação da juventude em países em que esteve anteriormente proibido. Permitam-me simplesmente dizer, no que se refere à cooperação entre o Escotismo Mundial com a UNESCO, que se trata de um processo muito estreito, como cabe a um dos maiores movimentos de educação não-formal da juventude. Os senhores certamente se lembram da Operação Chernobyl, realizada em conjunto por ambas as organizações, em 1990 e 1991 e beneficiou as 3.000 crianças e jovens da Bielorússia, da Ucrânia e da Rússia. Mais recentemente, fizemos urna decisiva contribuição ao trabalho da UNESCO, assegurando que, em vinte e dois países selecionados ao redor do mundo para que constituíssem uma amostragem significativa do ponto de vista geográfico e cultural, cinco mil e seiscentos jovens de doze anos respondessem a um questionário, no contexto de uma pesquisa sobre como é percebida pêlos jovens a violência veiculada nas telas, o qual foi preparado em conjunto pela Universidade de Utrecht, pelo Departamento de Comunicação da UNESCO e pelo Centro de Documentação a Estudos Prospectivos da Organização Mundial do Movimento Escoteiro. Finalmente, eu mencionaria o papel verdadeiramente ativo que nossa Organização sempre desempenou no programa de consulta coletiva das organizações juvenis não-governamentais, assim como, bastante recentemente, no processo de revisão do programa de consultas da UNESCO. Entretanto, a parte substancial do meu discurso vai se concentrar em um assunto que não interessa apenas ao Escotismo Mundial - trata-se da importância da educação não-formal da juventude, um assunto que está diretamente relacionado com as prioridades de sua vigésima nona conferência geral sobre juventude e educação para todos. O excelente relatório elaborado pela Comissão Internacional para Educação mais comumente conhecido como Relatório Delors - intitulado "A Educação contém um tesouro", indica os quatro pilares sobre os quais se baseia a educação continuada: aprender a aprender, aprender afazer, aprender a conviver e aprender a ser. O relatório estabelece que este processo quadripartite não está restrito à educação formal ministrada pelas escolas e universidades, mas também se faz de maneira informal (no seio da família, pêlos meios de comunicação e pelo ambiente) e não-formal (quando em movimentos educacionais voluntários, como o Escotismo). Ainda assim, nossa sociedade contemporânea, em todas as partes do mundo, está enfrentando o sério problema do déficit educacional global. Quando se trata da educação formal, o Relatório Delors destaca a dificuldade que muitos professores enfrentam em continuar sendo também educadores, em face da grande quantidade de conhecimentos que devem transmitir aos seus alunos. Freqüentemente surgem situações em que a escola, tendo que ensinar cada vez mais e mais, acaba por educar menos e menos. Além disso, certos elementos da educação informal, como a família, estão apresentando sinais de sério enfraquecimento. 0s próprios professores sublinham a importância do papel complementar da família, em termos de educação. Entretanto, existe uma tendência mundial nesse terreno: de uma forma ou de outra, as famílias estão oferecendo aos seus filhos maior independência, mas sem lhes ensinar a autonomia, que lhes permitiria administrar a independência - e as drogas, a violência e outros males são a expressão da contradição existente entre a independência de fato, de um lado, e a ausência ele autonomia, do outro. Em termos de contribuição da comunidade para a educação informal, é uma característica de nossa sociedade de consumo que se ensine às crianças o preço de tudo, mas não o valor de nada, mesmo nas sociedades mais pobres, que não têm recursos que lhes permitam "consumir". Déficit entre educação e ensino! Déficit entre independência e autonomia! Déficit entre preços e valores! É enorme o desafio enfrentado por nossa sociedade. Mas é um desafio que pode ser vencido pela educação não-formal oferecida pêlos movimentos de juventude, particularmente por aqueles que propõem padrões sociais e atitudes baseados em um sistema estruturado de valores. Esses movimentos partilham as características de participação voluntária, aprendizagem progressiva pela experiência, amizade e estreito relacionamento entre jovens e adultos - todas intimamente ligadas com a estruturação da personalidade dos jovens pelo estímulo ao seu senso de iniciativa e responsabilidade, ao estabelecimento de uma escala de valores e à noção de cidadania, que os levará a serem os atores principais no mundo de amanhã. Compreendendo a importância da educação não-formal como um elemento essencial do processo de educação, os líderes dos cinco maiores movimentos não-governamentais voltados para a educação da juventude elaboraram, sob a presidência do Duque de Edimburgo, um documento intitulado "A educação da juventude no limiar do Século XXI", que constitui sua resposta ao Relatório Delors. Eu gostaria de obter sua atenção para esse texto, que cada Delegação permanente logo estará recebendo pelo correio, e para seus autores, que são os principais líderes - além daqueles que representam o Escotismo e o Guidismo - da Aliança Mundial das Associações Cristãs de Moços, da Associação Mundial das Jovens Cristãos e da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Juntas, essas organizações representam cem milhões de jovens em todo o mundo. E nossa mensagem conjunta é simples: nós pedimos aos Senhores, que têm a educação da juventude em seus corações, que lutam por melhorar a educação formal nas escolas e universidades, que estão preocupados com o encolhimento da educação informal, na família e nas atividades de tempo livre, que compreendam a contribuição essencial que as organizações voltadas para a educação não-formal podem trazer ao desenvolvimento da personalidade dos jovens, para ajudar a resolver os problemas de saúde, consumo de drogas e violência com que se defronta a nossa juventude e para ajudar a que cresçam aqueles que amanhã, como adultos, farão com que a sociedade seja realmente diferente e melhor. Esses movimentos educacionais estão melhor equipados do que ninguém para ensinar ao jovem, senão à aprender, pelo menos a fazer, a conviver e a ser. Não pode haver melhor investimento do que aquele que for feito no futuro do jovem autônomo, solidário, responsável, comprometido, capaz de administrar sua vida e de se autodesenvolver plenamente, como indivíduo e membro da sociedade. E é essa a espécie de jovem que emerge dos movimentos educacionais não-formais como o Escotismo e os outros co-autores do documento. Muito obrigado por terem isso em mente, quando estiverem discutindo as resoluções propostas em seu Programa Número Um sobre educação para todos e nos projetos interdisciplinares sobre educação para um futuro sustentável. Muito obrigado pela sua atenção. Outubro, 1997 Formulada pêlos mais altos dirigentes de cinco das maiores organizações de caráter mundial que atuam no campo da educação não-formal, com o decidido apoio do Secretário Geral da International Award Association. World Alliance of Young Men's Christian Associations John Casey, Secretário Geral, YMCA (ACM no Brasil) A YMCA dedica suas principais atividades à juventude, em aproximadamente 130 países em todo o mundo, esforçando-se para facilitar o progresso humano nas esferas social, econômica, política, cultural, intelectual e espiritual. Por meio dessa obra, busca levar à prática sua visão de uma condição humana universal, baseada na paz e na justiça para todos. World Young Women's Christian Association Elaine Hesse Steel, Secretária Geral, World YWCA A World YWCA é um movimento internacional integrado por voluntárias que agrupa aproximadamente 25 milhões de mulheres, com atuação em 103 países. Superando barreiras como a distância, os idiomas e as culturas, as entidades filiadas à World YWCA trabalham com entusiasmo em favor da paz com justiça, do desenvolvimento sustentável, do respeito aos direitos humanos para todos e da preservação do meio ambiente, dedicando especial atenção à formação e à capacitação de lideranças jovens. World Organization of the Scout Movement Dr. Jacques Moreillon, Secretario Geral, WOSM O número de adolescentes escoteiros, rapazes e moças, ultrapassa os 25 milhões, em 215 países e territórios. O escotismo é educação para toda a vida e recreação com uma finalidade. Contribui para o desenvolvimento dos jovens, promovendo a plena realização de suas potencialidade físicas, intelectuais, sociais, afetivas e espirituais, como indivíduos, como cidadãos responsáveis e como membros de suas respectivas comunidades, no âmbito local, nacional e internacional. World Association of 'Girl Guides and Girl Scouts Jan Holt, Diretora, WAGGGS (Setembro de 1990 - Julho de 1997) A World Association of Girl Guides and Girl Scouts, que constitui a maior organização voluntária de meninas e moças em todo o mundo, reúne quase dez milhões de integrantes. Por intermédio de suas entidades nacionais em 136 países, a WAGGGS desenvolve um programa educativo dinâmico, flexível e baseado em valores positivos, orientado para as necessidades de crianças e adolescentes do sexo feminino. Baseada em valores espirituais, a WAGGGS dedica sua ação à promoção da paz e da cidadania mundial. The lnternational Federation of Red Cross and Red Crescent Societies George Weber, Secretário Geral A International Federation of Red Cross and Red Crescent Societies é uma organização humanitária internacional cuja excepcional rede de instituições abraça todo o planeta. Empenha-se para melhorar a situação de pessoas mais vulneráveis da população mundial, prestando-lhes assistência sem discriminação alguma e promovendo os valores humanitários. Sua rede juvenil, que conta com vários milhões de voluntários, vem desenvolvendo seus programas de atividades ha 75 anos. The International Award Association Paul Arengo-Jones Secretário ,Geral A Award Association se ocupa da coordenação e da promoção do Prêmio Internacional para a Juventude, uma evolução do Prêmio Duque de Edimburgo. É um programa de atividades para o tempo livre, sob ,a forma de aventura destinada a preparar i pessoa humana em sua integridade, sem distinção de sexo, cor, crença ou quaisquer outras qualificações. Desde 1965 este Programa já proporcionou a quase 4 milhões de jovens, em mais de 90 países, oportunidades para estabelecer e, alcançar metas pessoais, aprendendo um pouco mais sobre si próprios e sobre suas comunidades. 1. Introdução 1.1 Em seu sentido mais amplo, a educação é um processo que se prolonga por toda a vida e que favorece um permanente aperfeiçoamento das aptidões de uma pessoa como indivíduo e como membro da sociedade. A finalidade da educação é contribuir para o pleno desenvolvimento de pessoas autônomas, solidárias, responsáveis e comprometidas. A educação pode ser formal (nas escolas), informa] (na família, nos grupos de amigos da mesma idade, nos meios de comunicação) e não-formal (movimentos juvenis, clubes). Cada forma de educação desempenha um papel muito importante, são todas interdependentes e se complementam umas às outras. 1.2 Um dos desafios que enfrentamos é o de tomar consciência de que as aceleradas transformações a que está sujeita a sociedade causam um impacto bastante forte sobre os jovens e deveriam se refletir nas oportunidades educacionais a eles oferecidas. Constitui, sem dúvida, um problema grave o fato de a educação formal e acadêmica se considerar o único componente essencial da educação. Assim se subestima a educação não-formal, a mais, apta a ajudar os jovens a fazer frente às transformações sociais, sem aproveitar plenamente as oportunidades que ela representa. 1.3 É necessário reconhecer a validade universal da educação não-formal, em especial a que é desenvolvida por organizações mundiais delicadas a educação dos jovens. 1.4 Sob a presidência de Sua Alteza Real o Duque de Edimburgo, Presidente da Intemational Award Association, os mais altos dirigentes de cinco das mais importantes organizações mundiais de educação não-formal - World Alliance of Young Men's Christian Associations, World Young Women's Christian Association, World Organization of the Scout Movement, World Association of Girl Guides and Girl Scouts e Intemational Federation of Red Cross and Red Crescent Societies, analisaram em conjunto a visão que têm quanto à educação dos jovens, nos dias de hoje e no século que se aproxima. 1.5 Essas organizações reúnem hoje mais de 100 milhões de jovens, contam com o apoio de um grande número de adulto e, durante este século, contribuíram para a educação de mais de um bilhão de meninos e meninas. 1.6 Considerando a importância universal da educação da juventude, os altos dirigentes dessas organizações formularam esta declaração conjunta, fundamentada em sua experiência e em seu conhecimento do assunto. 2. O desafio A aceleração das transformações na sociedade provoca importantes conseqüências para a juventude, e as oportunidades educacionais à sua disposição devem levar em conta essas transformações. 2.1 As transformações na Sociedade e suas conseqüências para a juventude. 2.1.1 Em muitos setores, os modelos de sociedade geralmente aceitos estão se transformando. Algumas dessas transformações só tem repercussões em determinados lugares do mundo, enquanto outras alcançam impacto efetivamente mundial. Exemplos: · Os movimentos migratórios cada vez mais numerosos e vertiginosos, em parte decorrentes da maior mobilidade das pessoas, provocam alterações fundamentais no estilo de vida tradicional, tanto nas zonas rurais como nas urbanas. Assim, para os jovens, é cada vez mais difícil contar com o respaldo das tradicionais estruturas sociais de apoio. · A evolução da estrutura da família e a declinante influência da vida familiar na educação das crianças e jovens privam-nos, com freqüência, da assistência essencial dos pais. As pressões do mundo contemporâneo obrigam muitos adultos a abandonar sua cultura tradicional, dificultando o processo de transmissão de seus valores e conhecimentos às gerações futuras. · São amplamente difundidos, em escala mundial, estilos de vida que nem sempre correspondem às realidades locais. Cabe citar como exemplo a aparição de hábitos de consumo que não respondem às necessidades de desenvolvimento e que despertam desejos insatisfeitos, que logo cedem lugar a uma frustração cada vez mais aguda entre as gerações jovens. · Há uma sensação cada vez mais perceptível de que os jovens não serão capazes de assumir uma vida adulta plena e responsável. Tal incerteza é alimentada por sistemas educacionais inadequados e, em particular no caso de crianças e jovens do sexo feminino, marcados pela falta de oportunidades de capacitação e pelo desemprego crônico. Impõe-se uma mudança de mentalidade e de perspectiva quanto à necessidade de segurança e continuidade no desenvolvimento pessoal. 2.1.2 As transformações sociais análogas às que descrevemos acarretam profundas implicações para os jovens. Para que possam se desenvolver na sociedade em que vivem, e colaborar para o desenvolvimento dessa mesma sociedade, os jovens devem adquirir e ampliar conhecimentos, aptidões e atitudes que lhes permitam atender às suas necessidades. Isso significa: · Suprir às necessidades básicas - alimentação, saúde, moradia, emprego ou outra atividade satisfatória e sensação de segurança. · Descobrir uma dimensão espiritual para a vida. · Encontrar um ponto de partida firme, arraigado em valores, confiança em si próprio e autoconhecimento. · Enfrentar a mudança, que exige flexibilidade, adaptação e mobilidade. · Dominar de maneira construtiva o progresso tecnológico, por meio da aquisição de conhecimentos e de habilitação técnica. · Lutar contra o isolamento, forjando um sentido de participação e identidade, conquistando aceitação e reconhecimento. · Sentir-se útil mediante a prestação de serviços para o desenvolvimento da comunidade e da sociedade, em geral. · Aprender a reconhecer o valor da colaboração e do espírito de equipe. 2.1.3 As necessidades concretas dos jovens variam de um país para outro e, até, de um indivíduo para outro, segundo as circunstâncias. Em qualquer caso, os jovens devem avançar em seu desenvolvimento, pondo à prova suas aptidões e descobrindo o mundo que os rodeia. Devem ter acesso ao conhecimento e à competência, para que possam compreender melhor o que é o mundo. Necessitam poder assumir um papel ativo e responsável na vida social e, por meio dele, obter o reconhecimento e a inserção na sociedade. 2.1.4 Independentemente do meio em que se desenvolvem, os jovens compartilham as mesmas necessidades essenciais, e devem poder adquirir a capacidade para seguir adiante, como artífices de seu próprio desenvolvimento, para que se tornem homens e mulheres: autônomos - capazes de tomar decisões e de serem senhores de sua vida pessoal e social, como indivíduos e membros da sociedade. solidários - capazes de se interessar pêlos demais, conjugar esforços com eles e em seu benefício e compartilhar suas inquietações. responsáveis - capazes de assumir responsabilidade por seus atos, cumprir as obrigações assumidas e levar a bom termo as tarefas iniciadas. comprometidos - capazes de se afirmar em defesa de seus valores, de uma causa ou de um ideal, e de agir em conseqüência. favorecendo, assim, a plena realização de seu potencial como pessoas e como membros da sociedade. Esse objetivo só poderá ser alcançado se as oportunidades educacionais oferecidas aos jovens forem capazes de atender a todas essas necessidades. 2.2 A Definição de Educação 2.2.1 Em oposição ao ponto de vista tradicional que restringe o sentido de 'educação' aos sistemas de ensino formal (como as escolas ou as universidades), os autores da presente declaração consideram que existe uma definição mais exata: A educação é um processo sem fim que favorece o desenvolvimento permanente das aptidões de toda pessoa, como indivíduo e como membro da sociedade. 2.2.2 Conforme esta definição mais ampla, a educação ao longo da vida repousa sobre quatro pilares:[1] Aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a ser. Aprender a aprender, juntando conhecimentos suficientemente amplos e gerais pelo exame profundo de alguns temas. Isto significa que há que se ensinar a aprender, para aproveitar todas as oportunidades que a educação oferece ao longo da vida. Aprender a fazer, para adquirir aptidões profissionais, além de uma ampla gama de aptidões para a vida, inclusive aquelas que determinam as relações entre pessoas e dentro de um grupo. Aprender a conviver, afinando a compreensão frente às demais pessoas, reconhecendo a interdependência, desenvolvendo aptidões para o trabalho coletivo e para a solução de divergências, assim como um profundo respeito por valores como o pluralismo, a compreensão mútua, a paz e a justiça. Aprender a ser, para consolidar o caráter e atuar cada vez com maior independência, critério e sentido de responsabilidade. Para tanto, a educação não deve descuidar de nenhum aspecto do potencial de desenvolvimento de um jovem. 2.2.3 Os autores consideram, portanto, que a educação é um processo pessoal e, ao mesmo tempo, social. Deve apoiar o desenvolvimento de uma pessoa como indivíduo e como membro da sociedade. 2.2.4 Diferentes agentes educacionais intervém no processo de assegurar o pleno desenvolvimento individual e social de uma pessoa. A definição geralmente aceita da UNESCO reconhece a existência de três tipos de educação: A educação formal, que corresponde ao sistema educativo estruturado hierarquicamente, com cursos estabelecidos em seqüência cronológica e que começa com a escola de primeiro grau e se prolonga até as instituições de ensino superior. A educação informal, isto é, o conjunto de procedimentos mediante os quais o indivíduo assimila atitudes, valores, aptidões e conhecimentos pela convivência diária com a família, com os amigos, com os companheiros que compartilham idênticos interesses, com os meios de informação e com todos os demais componentes do ambiente que o envolve. A educação não-formal, que consiste em uma atividade organizada com finalidades educacionais, à margem do sistema oficial estabelecido, e que é destinada a um setor específico e orientada por objetivos educativos claramente definidos. 2.2.5 Cada uma dessas três categorias de educação desempenha um papel específico e complementar às outras duas, e todas são imprescindíveis para conquistar os resultados desejados. Em termos gerais: Os conhecimentos e as qualificações para o trabalho se adquirem por meio da educação formal. 2.2.6 Certo número de aptidões, tanto pessoais como sociais, se adquirem por meio da educação informal. A aquisição de uma aptidão para viver e de atitudes que se apoiam em um sistema de valores integrado é possível graças à educação não-formal. Um dos principais problemas contemporâneos da educação é a persistente tendência a se dedicar mais tempo, mais recursos e maior responsabilidade ao setor da educação acadêmica formal. Assim, não se valoriza a importância da educação não-formal e se descarta qualquer possibilidade de assegurar recursos que a respaldem, diante da crescente demanda por recursos finitos e do tempo limitado. A importância da educação não-formal se deve às suas características específicas e intrínsecas que, em grande parte, não se confundem com aquelas da educação formal ou informal. Tais características são analisadas a seguir. 3. Características Características das Organizações de Educação Não-Formal As organizações de educação não-formal, como os movimentos de jovens, reúnem certas características que lhes concedem uma capacidade única para contribuir com o processo de educação do indivíduo, ao longo de sua vida. Em primeiro lugar, geralmente são organizações que têm as pessoas como principal núcleo de interesse e que se baseiam fortemente no sentido de compromisso e de responsabilidade individual no processo de crescimento ao longo da existência. Em segundo lugar, compartilham todas ou algumas das características que se expõem mais adiante e que as distinguem de outras organizações, além de reforçar a motivação que anima toda pessoa a participar ativamente do processo de aprendizagem. 3.1 O caráter voluntário. As organizações de jovens se distinguem por seu caráter voluntário. Os que decidem aderir a essas organizações o fazem voluntariamente e, mesmo quando a família ou os companheiros exercem certa pressão inicial, sempre chega o momento em que cada pessoa toma livremente a decisão de prosseguir ou abandoná-las. Essa participação voluntária fortalece o sentido de motivação e incide de modo positivo na formação do caráter. 3.2 A aprendizagem pela prática. As organizações de educação não-formal põem à disposição do educando, em seus respectivos ambientes, um campo experimental prático. A aprendizagem é resultado de todas as experiências concretas de uma pessoa, e não se circunscreve apenas a uma explicação teórica. O sentido das relações com o próximo, por exemplo, emanará diretamente da convivência. A identificação das aptidões e limitações próprias serão alcançadas por meio da imersão direta da execução de um projeto ou pelo empenho em superar desafios concretos. 3.3 Os programas progressivos. A maior parte das organizações educacionais para a juventude concebe seus programas de modo progressivo. Isso permite ajudar a pessoa a avaliar seu desenvolvimento, de maneira flexível, de um determinado tempo, fugindo à rigidez peculiar de todo programa de estudos de natureza fixa. A pessoa se integra ao programa, põe em prática o que aprende e completa gradualmente suas fases sucessivas segundo seu ritmo, seu grau de desenvolvimento e sua disposição para aprender. Agregando-se ao caráter voluntário e ao compromisso pessoal, o conceito de progressividade se converte em um mecanismo muito poderoso de desenvolvimento, ainda mais eficaz porque permite ao indivíduo avaliar o progresso realizado à luz dos seus avanços anteriores, e não por comparação com os outros. 3.4 Os grupos de companheiros de mesma faixa etária. Agrada muito aos jovens pertencer a um grupo. As organizações de educação não-formal têm sabido aproveitar essa tendência, enriquecendo-a com uma dimensão pedagógica. Um grupo cujos componentes se encontram na mesma faixa etária apresenta o marco ideal para um jovem que, em colaboração com outros, pode planejar e levar a cabo projetos, assumir responsabilidades, construir relações, desempenhar determinadas funções, refletir e fazer avaliações em conjunto . demonstrar suas reações e conhecer a dos demais membros do grupo, alem de extrair os ensinamentos resultantes da experiência. Finalmente, o grupo de companheiros de mesma faixa etária é essencial ao processo de formação de uma escala de valores pêlos jovens. A opinião dos companheiros exerce uma forte influência no momento de adotar decisões, em particular no que se refere a assuntos relacionados com valores, como o uso de drogas, as relações sexuais e outros. 3.5 As relações entre os jovens e os adultos. As organizações educacionais para a juventude favorecem autênticas relações de associação entre jovens e adultos, em um contexto onde todos colaboram de forma voluntária e reconhecem que podem aprender uns com os outros. Esta associação supõe apreciação e respeito mútuos. Há poucos ambientes tão favoráveis ao afloramento dessa espécie de relação, absolutamente despida de todo e qualquer autoritarismo, e as organizações voluntárias voltadas para a educação da juventude se destacam justamente por isso. 3.6 O desenvolvimento de lideranças. As organizações de jovens com fins educacionais invariavelmente oferecem, como componente de seus programas, a possibilidade de assumir funções de direção. Por esse meio, os jovens vão adquirindo aptidões de liderança que gradualmente consolidam e utilizam, sem ter que esperar até "que se tomem adultos". Dessa forma, acumulam uma experiência de primeira mão sobre a Democracia, sobre o processo de tomada de decisões e sobre a direção responsável e democrática, que raras vezes poderia ser obtida de maneira estruturada, em qualquer outro sistema de educação. 3.7 desenvolvimento do sistema de valores. Todas as organizações fundamentam e põem em prática um conjunto de valores que reflete a sua deontologia[2] . A organização está imbuída destes valores que incidem intensamente em suas atividades, em seus métodos de operação, em seu estilo e nas relações que estabelece com o exterior. Assim, oferece aos jovens a possibilidade de descobrir, analisar e compreender diversos valores, bem como a oportunidade de construir uma escala de valores que lhes servirá de inspiração para toda a vida. 4. Ações Medidas Necessárias O ritmo de transformações aceleradas a que se submete a sociedade tem enorme repercussão na vida dos jovens. É cada dia mais necessário que o ambiente multifacetado da educação reconheça as conseqüências que resultam dessas transformações , para ajudar os jovens a fazer frente aos desafios que os esperam no próximo milênio. Os autores exortam enfaticamente aos que participam da formulação de políticas de educação da juventude para o próximo milênio que admitam que a educação não-formal é parte essencial do processo educativo e reconheçam a contribuição que as organizações de educação não-formal podem aportar, nesse contexto. A essas pessoas, os autores recomendam, especialmente, que: · Estabeleçam um diálogo com as organizações de educação não-formal. · Respaldem e aproveitem os conhecimentos, os recursos e a experiência das organizações de educação não-formal para a juventude. · Fortaleçam as relações de associação e de cooperação entre setores da educação formal, informal e não-formal, para configurar políticas que atendam a todas as necessidades dos jovens, em matéria de educação. E, por último, os autores convidam encarecidamente as organizações de educação não-formal a apoiar e subscrever a visão exposta. [1] Os quatro pilares e suas definições estão resumidos no documento "A Educação contém um tesouro", informe apresentado à UNESCO pela , Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, presidida pelo Sr Jacques Delory. [2] A deontologia é o estudo dos princípios, dos fundamentos e dos sistemas de moral. Yahoo! Groups Sponsor ----------------------------------------------- IDENTIFIQUE-SE! 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